Saturday, July 04, 2009

Pensamento #2

"O chocolate não engorda, quem engorda és tu."

Thursday, July 02, 2009

Pensamento #1

"As calorias são pequenos animais que moram nos roupeiros e que durante a noite apertam a roupa das pessoas."



Wednesday, June 24, 2009

Gerês

Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram

Jorge Sousa Braga

Tuesday, June 16, 2009

Onde há gente no mundo?

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Friday, June 12, 2009

Divido o que conheço


Divido o que conheço.

De um lado é o que sou

Do outro quanto esqueço.

Por entre os dois eu vou.


Não sou nem quem me lembro

Nem sou quem há em mim.

Se penso, me desmembro.

Se creio, não há fim.


Que melhor que isto tudo

É ouvir, na ramagem,

Aquele ar certo e mudo

Que estremece a folhagem.


Fernando Pessoa

Thursday, June 11, 2009


Gostava que tudo fosse mais simples. Mais fácil.

Saturday, June 06, 2009

Taxi - Ontem, hoje e amanhã


Foi pena o som estar incrivelmente mau e tornar quase impossível sentir a magia dos anos 80. Mas o misticismo deles estava lá e as saudades eram mais que muitas. Ainda bem que voltaram :)

Thursday, June 04, 2009

Não gosto de números ímpares.

Sunday, April 12, 2009

Os meus livros seleccionados #10

Vida de Adulto
Pedro Paixão


Friday, April 10, 2009

Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagámos de beijos
quando eram outras horas nos relógios do mundo
e não havia ainda quem soubesse de nós;
e leva-o depois para junto do mar,
onde possa ser apenas mais um poema
- como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros
e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas
a saudades de um Verão carregado de paixões).
E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas que chamem pelas abelhas,
e um cordão de árvores que perfurem a noite
- porque a morte deve ser clara como o sal na bainha das ondas,
e a cegueira sempre me assustou
(e eu já ceguei de amor, mas não contes a ninguém que foi por ti).
Quando eu morrer,
deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores,
nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
E promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios;
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez:
se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz,
lágrimas de sol, ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

- Maria do Rosário Pedreira

Wednesday, April 08, 2009

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu da tua boca.

- Jorge Sousa Braga

Monday, April 06, 2009

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

- Fernando Pessoa

Saturday, April 04, 2009

Eco

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.

Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.

Era esse o meu reino e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.

- Fernando Pinto do Amaral

Wednesday, March 25, 2009

Os meus filmes seleccionados #27

O Despertar da Mente (The Eternal Sunshine of The Spotless Mind)
Michel Gondry, 2004

Tuesday, March 24, 2009

Os meus filmes seleccionados #26

Perto Demais (Closer)
Mike Nichols, 2004


"Why isn't love enough?"

Sunday, March 22, 2009

Ausência

"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, a as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói."

- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês

Friday, March 20, 2009

Os meus livros seleccionados #9

O estrangeiro
Albert Camus, 1942


“Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.”

Wednesday, March 18, 2009

25/06/1985 - 11/03/2009

Não vou esquecer o teu rosto.
Não vou esquecer o sofrimento e a incredulidade nas expressões de todas as pessoas que te conheceram.
Não vou esquecer o desespero dela ao sentir-te desaparecer, o desespero de sentir a felicidade fugir, os planos desfazerem-se, o desencontro do amor que havia encontrado.

Os meus filmes seleccionados #25

Breakfast on Pluto
Neil Jordan, 2005


Tuesday, March 17, 2009

Pedro, lembrando Inês

"Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós?" Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando não te vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste."

- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês

Monday, March 16, 2009

Os meus livros seleccionados #8

O Retrato de Dorian Gray
Oscar Wilde, 1890



“Toda a arte é inútil."

"(...) Depois, aparecera Lord Henry Wotton com o seu estranho discurso panegírico sobre a juventude e o prenúncio terrível da sua brevidade. Isso perturbara-o então, e agora, ao encarar o reflexo da sua beleza, toda a realidade da descrição acudiu-lhe subitamente ao espírito. De facto, havia de chegar o dia em que o rosto ficaria enrugado e mirrado, os olhos baços e sem cor, e a graciosidade das suas formas destruída e deformada. O vermelho vivo dos lábios desapareceria, e também o tom dourado do cabelo. A vida que teve, que Lhe criar a alma havia de desfigurar-Lhe o corpo. Iria tornar-se horrendo, hediondo e grosseiro. Ao pensar nisso, uma dolorosa angústia, acutilante como uma faca, fez vibrar cada fibra delicada do seu ser. O azul dos olhos passou a cor de ametista, e cobria-o uma névoa de lágrimas. Tinha a sensação de que uma mão de gelo lhe pousara no coração. (…)”

Sunday, March 15, 2009

"Podes chegar a qualquer momento, abrir o saco dos ventos, desencadear a tempestade, morrer comigo no mar imaginário do amor único."

Manuel Alegre in A Terceira Rosa

Saturday, March 14, 2009

Os meus filmes seleccionados #24

Kill Bill vol. 1
Quentin Tarantino, 2003


Friday, March 13, 2009

"Ás vezes penso se não serás apenas uma ilusão. Gostava de poder criar para ti a fala que não há, inventar outra caligrafia para deixar de ti não apenas um traço mas o retrato de onde saísses inteira e fulgurante para outro tempo, outra cidade, outra aventura."

Manuel Alegre in A Terceira Rosa

Thursday, March 12, 2009

Os meus livros seleccionados #7

A relíquia
Eça de Queiroz


"Quando recolhíamos ao quarto, alumiados pelo Gonçalves, passou por nós, bruscamente, no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor forte de sedas claras, espalhando um aroma de almíscar. Era a inglesa do senhor barão. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando Ave-Marias. Nunca roçara corpo tão belo, de um perfume tão penetrante; ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras..."

Wednesday, March 11, 2009

"- Tenho saudades, dizias. Saudades do que foi, do que está a ser, do que será, sobretudo do que não será. (...) ...certos amores são perigosos, passam e não passam."

Manuel Alegre in A Terceira Rosa

Tuesday, March 10, 2009

Os meus filmes seleccionados #23

Mulholland Drive
David Lynch, 2001

Sunday, March 08, 2009

Os meus livros seleccionados #6

O Evangelho Segundo Jesus Cristo
José Saramago

"A Inquisição é uma polícia e é um tribunal, por isso haverá de prender, julgar e condenar como fazem os tribunais e as polícias, Condenará a quê, Ao cárcere, ao degredo, à fogueira, À fogueira, dizes, Sim, vão morrer queimados, no futuro, milhares e milhares e milhares de homens e mulheres, De alguns já me tinhas falado antes, Esses foram lançados à fogueira por crerem em ti, os outros sê-lo-ão por duvidarem, Não é permitido duvidar de mim, Não, Mas nós podemos duvidar de que o Júpiter dos romanos seja deus, O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tu és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue."

Friday, March 06, 2009

Os meus filmes seleccionados #22

A mulher que viveu duas vezes (Vertigo)
Alfred Hitchcock, 1958

"Às vezes perco as forças e vem-me à cabeça tudo o que passámos juntos - o quarto de hotel onde nos amámos observados pelos espelhos, os passeios pelas ruas do cosmos que só nós viamos porque estávamos de mãos e corações entrelaçados, as tentações doces a que não resistíamos, o cinema, a natureza e os lobos invisíveis que se transformavam em cãezinhos indefesos durante o dia, os esquilos na janela surpreendidos com a magia de uma união, o cheiro de lisboa, a cidade bela e triste porque tudo o que é belo é triste...e as lágrimas, recordo e sinto ainda as lágrimas derramadas como o sangue dos esperançosos portugueses por um amor tão forte que chegava a dar para prever que teria um fim..."

Wednesday, March 04, 2009

Os meus livros seleccionados #5

A insustentável leveza do ser
Milan Kundera


"Mas o que acontecera ao certo a Sabina? Nada. Deixara um homem porque queria deixá-lo. Esse homem tinha vindo atrás dela? Tinha querido vingar-se? Não. O seu drama não era o drama do peso, mas o da leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser."

Monday, March 02, 2009

Os meus filmes seleccionados #21

Veludo Azul (Blue Velvet)
David Lynch, 1986