Wednesday, December 30, 2009

Tuesday, December 29, 2009

Saturday, December 26, 2009

Thursday, December 24, 2009

Dia de Natal

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros - coitadinhos - nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)
Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas a luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bençãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra - louvado seja o Senhor! - o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.

De manhãzinha
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus,
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão

Monday, December 21, 2009

Os meus filmes #37

O Grande Lebowski (The Big Lebowski)
Joel & Ethan Coen, 1998

Saturday, December 19, 2009

Os meus filmes #36

Os Sete Pecados Mortais (Se7en)
David Fincher, 1995

Friday, December 18, 2009

Se ainda der para disfarçar


Quantas voltas tem a dança em tantas voltas contadas?
Um segredo de criança escondido em mil gargalhadas
Tantas mãos que foram dadas na ternura de um abraço
Quantas vontades caladas na volta meiga de um passo

Quantas horas de viagem na alegria de te ver
Quanta falta de coragem, tanta coisa por dizer
E acabamos a esconder vá-se lá saber porquê
Nestas coisas do querer os sinais são para quem os lê
...
Faz de conta que o poente acontece a qualquer hora
Quando a noite se faz quente e um beijo se demora
Já o frio se foi embora ao tocar da tua mão
Que há-de ser de nós agora faz sentido sim ou não

Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar

É a valsa do começo, é a vida a esvoaçar
É a pele a soltar um arrepio
É uma cor que eu não conheço, um sabor de acreditar
É uma praia cor de um desafio
...
Dá-me uma dança, faz-me acreditar
Uma lembrança p’ra eu levar
Que eu tenho sempre vontade de voltar e te dizer
Se ainda der p’ra disfarçar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar
Ensina-me a dançar

- Sebastião Antunes

Thursday, December 17, 2009

Os meus filmes #35

Fala com ela (Hable con ella)
Pedro Almodóvar, 2002

Wednesday, December 16, 2009

Os meus filmes #34

Dr. Estranhoamor (Dr. Strangelove or: How I learned to stop worrying and love the bomb)
Stanley Kubrick, 1964


Se antes de cada acto nosso nos puséssemos a prever todas as consequências dele, a pensar nelas a sério, primeiro as imediatas, depois as prováveis, depois as possíveis, depois as imagináveis, não chegaríamos sequer a mover-nos de onde o primeiro pensamento nos tivesse feito parar.
Os bons e os maus resultados dos nossos ditos e obras vão-se distribuindo, supõe-se que de uma forma bastante uniforme e equilibrada, por todos os dias do futuro, incluindo aqueles, infindáveis, em que já cá não estaremos para poder comprová-lo, para congratular-nos ou pedir perdão, aliás, há quem diga que isso é que é a imortalidade de que tanto se fala.

Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira

Tuesday, December 15, 2009

Os meus filmes #33

Clube de Combate (Fight Club)
David Fincher, 1999


(...) A publicidade põe-nos a correr atrás de carros e roupas.
Trabalhar em empregos que odiamos para comprar merdas inúteis.
Somos uma geração sem peso na história.
Sem propósito ou lugar.
Não temos uma Guerra Mundial.
Não temos a Grande Depressão.
A nossa Guerra é espiritual.
A nossa Depressão, são as nossas vidas.
Fomos criados através da TV para acreditar que um dia seríamos milionários, estrelas de cinema ou astros do rock.
Mas não somos. (...)

Monday, December 14, 2009

Posso continuar a contar?
Claro, estava à espera que o fizesses.
E por onde devo começar?
Começar? Mas a história já vai a meio.
Talvez tenhas razão, mas quando se recomeça uma história é como se ela começasse de novo.
Então começa-a de novo, pelo princípio, que é pelo princípio que todas as histórias começam.
Mas a história já vai a meio, não posso começar pelo princípio.
Então recomeça-a, ou começa-a, tanto faz, que no fundo talvez seja a mesma coisa.
(…)
Talvez as histórias não tenham fim, talvez as histórias não tenham princípio. Estás a ver?


Luís Ene

Saturday, December 12, 2009

Os meus filmes #32

Do céu caiu uma estrela (It's a Wonderful Life)
Frank Capra, 1946


Friday, December 11, 2009

Lavey (Les Bains)


Guardo na memória a imagem do recorte das montanhas cobertas de neve que escondiam a lua... O prazer de sentir a água quente no corpo e o ar gelado na inspiração... Mas o mais fantástico...Mozart tocava debaixo de água para tornar tudo ainda mais surreal...
Absolutamente inesquecível.

Listen carefully




Keith Jarrett - I loves you, Porgy


Thursday, December 10, 2009


"Tão pouco do que pode acontecer, acontece..."

Salvador Dalí

Wednesday, December 09, 2009

Lady Jane


Insane

Estarei a ficar doida?
Ah, já sou...
Ufffa... Que alíviooo!!!

In the mood


Starry night over the Rhone, Vincent van Gogh

Monday, December 07, 2009


Privamo-nos para mantermos a nossa integridade, poupamos a nossa saúde, a nossa capacidade de gozar a vida, as nossas emoções, guardamo-nos para alguma coisa sem sequer sabermos o que essa coisa é. E este hábito de reprimirmos constantemente as nossas pulsões naturais é o que faz de nós seres tão refinados.
Porque é que não nos embriagamos? Porque a vergonha e os transtornos das dores de cabeça fazem nascer um desprazer mais importante que o prazer da embriaguez.
Porque é que não nos apaixonamos todos os meses de novo? Porque, por altura de cada separação, uma parte dos nossos corações fica desfeita.
Assim, esforçamo-nos mais por evitar o sofrimento do que na busca do prazer.

- Sigmund Freud

Sunday, December 06, 2009

Saturday, December 05, 2009

Beauvoir


Atroz contradição a da cólera; nasce do amor e mata o amor.

- Simone de Beauvoir

Friday, December 04, 2009

Grow up

Não quero crescer mais... Porque é que o tempo não pára?

Thursday, December 03, 2009

Os meus filmes #30

Os Condenados de Shawshank (The Shawshank Redemption)
Frank Darabont, 1994


Wednesday, November 25, 2009

Odeio o Natal


Odeio o Natal, as prendinhas obrigatórias, as falsas caridades, as futilidades, as publicidades estúpidas a tentar vender tudo e mais alguma coisa, as criancinhas a fazerem birras porque querem o brinquedo não sei das quantas (e nem imaginam que há quem morra de fome...), o stress, a confusão... Não era suposto ser uma época de mais calma? Em vez de ser uma época focada na família e na união, o Natal passou a ser uma fútil e banal época de compras. Bah.

Tuesday, November 24, 2009

Clarice


Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro…

Clarice Lispector

Wednesday, November 18, 2009

À espera que venhas um dia

Já passei a fronteira do todo

Nada é novo para mim

Já nada me faz delirar

Tudo tem o mesmo fim

Eu já não sinto saudade

Eu agora sou assim

Só quero um pequeno lugar

E lá plantar o meu jardim


Vem que eu enfrento contigo

A tensão do nosso tempo

Faz-me tu uma surpresa

Enquanto eu ainda aguento

Vem senão eu enlouqueço

Dentro da monotonia

Vem porque eu ainda vivo

À espera que venhas um dia


- Fernando Girão

Monday, November 16, 2009

Blow

Como é possível que as pessoas ainda não tenham percebido que a vida é um sopro?

Para que criam desentendimentos desnecessários? Para que ficam a lamentar-se à espera de milagres se não fazem nada por elas mesmas? Porque não dizem e mostram mais vezes quanto gostam das pessoas? Porque não complicam menos? Porque não são mais honestas com os outros e com elas mesmas? Porque não lutam? Porque não riem mais? Porque não procuram o lado positivo? Porque não cometem pequenas loucuras? Porque não arriscam?

Porque não vivem?

Thursday, November 12, 2009

Quem é que tem coragem de ainda não estar no banco de doadores de medula?

Tuesday, November 03, 2009

"Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens."

Fernando Pessoa, in "O Eu Profundo"

Sunday, November 01, 2009

Tudo é foi

Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.

António Gedeão

Friday, October 30, 2009

Homem

Inútil definir este animal aflito.
Nem palavras,
nem cinzéis,
nem acordes,
nem pincéis
são gargantas deste grito.
Universo em expansão.
Pincelada de zarcão
desde mais infinito a menos infinito.

António Gedeão

Thursday, October 29, 2009

Eu sou


Entrar para o banco de potenciais doadores de medula não custa mesmo nada!
É só ir ao centro de histocompatibilidade mais próximo e doar uma pequena quantidade de sangue tal como quando se fazem análises sanguíneas de rotina.

E ao contrário do que se diz por aí, caso exista compatibilidade para se poder tentar ajudar a salvar alguém, ninguém nos vai espetar uma agulha na medula espinal!! As células necessárias são recolhidas através do sangue (citaferése) ou através de uma pequena punção no osso ilíaco (da bacia). Além disso, pode-se desistir em qualquer altura.

Ajudem, não custa nada.

Saturday, October 24, 2009

Tuesday, October 20, 2009

Stop to notice


Earth Song

What about sunrise?
What about rain?
What about all the things
That you said we were to gain...?

What about killing fields?
Is there a time?
What about all the things
That you said was yours and mine...?

Did you ever stop to notice
All the blood we've shed before?
Did you ever stop to notice
The crying Earth the weeping shores?

What have we done to the world?
Look what we've done
What about all the peace
That you pledge your only son...?
...
Did you ever stop to notice
All the children dead from war?
Did you ever stop to notice
The crying Earth the weeping shores?

I used to dream
I used to glance beyond the stars
Now I don't know where we are
Although I know we've drifted far

Hey, what about yesterday?
What about the seas?
The heavens are falling down
I can't even breathe

What about the bleeding Earth?
Can't we feel its wounds
What about nature's worth?
It's our planet's womb

What about animals?
We've turned kingdoms to dust
What about elephants?
Have we lost their trust?

What about crying whales?
We're ravaging the seas
What about forest trails?
Burnt despite our pleas

What about the holy land?
Torn apart by creed
What about the common man?
Can't we set him free?

What about children dying?
Can't you hear them cry?
Where did we go wrong?
Someone tell me why

What about babies?
What about the days?
What about all their joy?
What about the man?

What about the crying man?
What about Abraham?
What about death again?
Do we give a dam?

Sunday, October 18, 2009

Sugar baby love

Uma música para quem já viu "Breakfast on Pluto" (link na imagem):


Saturday, October 17, 2009

Mr. Bean...

Crashing bores

Como diz Morrissey: "The world is full of crashing bores..."




Thursday, October 15, 2009

Wednesday, October 14, 2009

Livros

Apenas se deveriam ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para quê lê-lo?

Franz Kafka

Tuesday, October 13, 2009

Tuesday, October 06, 2009

Cúmulo

O cúmulo é conduzir só com uma mão para poder enrolar o cabelo com a outra... Não conheço ninguém assim...

Monday, October 05, 2009

Música do dia

E o prémio de música do dia vai para...

Sunday, September 27, 2009

O fim

Não é a primeira vez que isto acontece. Espero por aquele grande momento, aquele último dia, aquele último esforço após o qual vou sentir um grande alívio e a sensação de missão cumprida.
Mas depois sinto-me exactamente igual ao dia anterior e a todos os outros. Não sinto alívio, nem missão cumprida, nem sinto sequer que foi o fim. Sinto apenas que vai começar mais uma "batalha", maior ainda do que a anterior...

Quer-me parecer que o fim de algo é sempre o início de outra coisa qualquer...

Os meus filmes #29

Gran Torino
Clint Eastwood, 2008

Thursday, September 17, 2009

Precisa-se de matéria prima para constuir um País

A crença geral anterior era de que Santana Lopes não servia, bem como Cavaco, Durão e Guterres. Agora dizemos que Sócrates não serve. E o que vier depois de Sócrates também não servirá para nada. Por isso começo a suspeitar que o problema não está no trapalhão que foi Santana Lopes ou na farsa que é o Sócrates.
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O problema está em nós. Nós como povo. Nós como matéria-prima de um país.
Porque pertenço a um país onde a ESPERTEZA é a moeda sempre valorizada, tanto ou mais do que o euro.
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Um país onde ficar rico da noite para o dia é uma virtude mais apreciada do que formar uma família baseada em valores e respeito aos demais.
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Pertenço a um país onde, lamentavelmente, os jornais jamais poderão ser vendidos como em outros países, isto é, pondo umas caixas nos passeios onde se paga por um só jornal E SE TIRA UM SÓ JORNAL, DEIXANDO-SE OS DEMAIS ONDE ESTÃO.
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Pertenço ao país onde as EMPRESAS PRIVADAS são fornecedoras particulares dos seus empregados pouco honestos, que levam para casa, como se fosse correcto, folhas de papel, lápis, canetas, clips e tudo o que possa ser útil para os trabalhos de escola dos filhos... e para eles mesmos.
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Pertenço a um país onde as pessoas se sentem espertas porque conseguiram comprar um descodificador falso da TV Cabo, onde se frauda a declaração de IRS para não pagar ou pagar menos impostos.
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Pertenço a um país:
-Onde a falta de pontualidade é um hábito;
-Onde os directores das empresas não valorizam o capital humano.
-Onde há pouco interesse pela ecologia, onde as pessoas atiram lixo nas ruas e, depois, reclamam do governo por não limpar os esgotos.
-Onde pessoas se queixam que a luz e a água são serviços caros.
-Onde não existe a cultura pela leitura (onde os nossos jovens dizem que é 'muito chato ter que ler') e não há consciência nem memória política, histórica nem económica.
-Onde os nossos políticos trabalham dois dias por semana para> aprovar projectos e leis que só servem para caçar os pobres, arreliar a classe média e beneficiar alguns.
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Pertenço a um país onde as cartas de condução e as declarações médicas podem ser 'compradas', sem se fazer qualquer exame.
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-Um país onde uma pessoa de idade avançada, ou uma mulher com uma criança nos braços, ou um inválido, fica em pé no autocarro, enquanto a pessoa que está sentada finge que dorme para não lhe dar o lugar.
-Um país no qual a prioridade de passagem é para o carro e não para o peão.
-Um país onde fazemos muitas coisas erradas, mas estamos sempre a criticar os nossos governantes.
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Quanto mais analiso os defeitos de Santana Lopes e de Sócrates, melhor me sinto como pessoa, apesar de que ainda ontem corrompi um guarda de trânsito para não ser multado.
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Quanto mais digo o quanto o Cavaco é culpado, melhor sou eu como português, apesar de que ainda hoje pela manhã explorei um cliente que confiava em mim, o que me ajudou a pagar algumas dívidas.
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Não. Não. Não. Já basta.
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Como 'matéria prima' de um país, temos muitas coisas boas, mas falta muito para sermos os homens e as mulheres que o nosso país precisa.
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Esses defeitos, essa 'CHICO-ESPERTERTICE PORTUGUESA' congénita, essa desonestidade em pequena escala, que depois cresce e evolui até se converter em casos escandalosos na política, essa falta de qualidade humana, mais do que Santana, Guterres, Cavaco ou Sócrates, é que é real e honestamente má, porque todos eles são portugueses como nós, ELEITOS POR NÓS. Nascidos aqui, não noutra parte...
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Fico triste. Porque, ainda que Sócrates se fosse embora hoje, o próximo que o suceder terá que continuar a trabalhar com a mesma matéria prima defeituosa que, como povo, somos nós mesmos. E não poderá fazer nada... Não tenho nenhuma garantia de que alguém possa fazer melhor, mas enquanto alguém não sinalizar um caminho destinado a erradicar primeiro os vícios que temos como povo, ninguém servirá. Nem serviu Santana, nem serviu Guterres, não serviu Cavaco, nem serve Sócrates e nem servirá o que vier.
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Qual é a alternativa ? Precisamos de mais um ditador, para que nos faça cumprir a lei com a força e por meio do terror ? Aqui faz falta outra coisa. E enquanto essa 'outra coisa' não comece a surgir de baixo para cima, ou de cima para baixo, ou do centro para os lados, ou como queiram, seguiremos igualmente condenados, igualmente estancados... igualmente abusados !
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É muito bom ser português. Mas quando essa portugalidade autóctone começa a ser um empecilho às nossas possibilidades de desenvolvimento como Nação, então tudo muda... Não esperemos acender uma vela a todos os santos, a ver se nos mandam um messias. Nós temos que mudar. Um novo governante com os mesmos portugueses nada poderá fazer. Está muito claro... Somos nós que temos que mudar. Sim, creio que isto encaixa muito bem em tudo o que anda a acontecer-nos: Desculpamos a mediocridade de programas de televisão nefastos e, francamente, somos tolerantes com o fracasso. É a indústria da desculpa e da estupidez.
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Agora, depois desta mensagem, francamente, decidi procurar o responsável, não para o castigar, mas para lhe exigir (sim, exigir) que melhore o seu comportamento e que não se faça de mouco, de desentendido. Sim, decidi procurar o responsável e ESTOU SEGURO DE QUE O ENCONTRAREI QUANDO ME OLHAR NO ESPELHO. AÍ ESTÁ. NÃO PRECISO PROCURÁ-LO NOUTRO LADO.
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E você, o que pensa ?... MEDITE !
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Eduardo Prado Coelho in Público

Thursday, August 20, 2009

Os meus filmes #28

21 Gramas (21 Grams)
Alejandro González Iñárritu, 2003




They say we all lose 21 grams at the exact moment of our death...
The weight of a stack of nickels.
The weight of a chocolate bar.
The weight of a hummingbird.

Saturday, July 04, 2009

Pensamento #2

"O chocolate não engorda, quem engorda és tu."

Thursday, July 02, 2009

Pensamento #1

"As calorias são pequenos animais que moram nos roupeiros e que durante a noite apertam a roupa das pessoas."



Wednesday, June 24, 2009

Gerês

Quando me levantei
já as minhas sandálias andavam
a passear lá fora na relva

Esta noite
até os atacadores dos sapatos
floriram

Jorge Sousa Braga

Tuesday, June 16, 2009

Onde há gente no mundo?

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cómico criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado,
Para fora da possiblidade do soco;
Eu que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu que verifico que não tenho par nisto neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo,
Nunca teve um acto ridículo, nunca sofreu um enxovalho,
Nunca foi senão - princípe - todos eles princípes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana,
Quem confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó princípes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde há gente no mundo?

Então só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Álvaro de Campos

Friday, June 12, 2009

Divido o que conheço


Divido o que conheço.

De um lado é o que sou

Do outro quanto esqueço.

Por entre os dois eu vou.


Não sou nem quem me lembro

Nem sou quem há em mim.

Se penso, me desmembro.

Se creio, não há fim.


Que melhor que isto tudo

É ouvir, na ramagem,

Aquele ar certo e mudo

Que estremece a folhagem.


Fernando Pessoa

Thursday, June 11, 2009


Gostava que tudo fosse mais simples. Mais fácil.

Saturday, June 06, 2009

Taxi - Ontem, hoje e amanhã


Foi pena o som estar incrivelmente mau e tornar quase impossível sentir a magia dos anos 80. Mas o misticismo deles estava lá e as saudades eram mais que muitas. Ainda bem que voltaram :)

Thursday, June 04, 2009

Não gosto de números ímpares.

Sunday, April 12, 2009

Friday, April 10, 2009

Quando eu morrer

Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagámos de beijos
quando eram outras horas nos relógios do mundo
e não havia ainda quem soubesse de nós;
e leva-o depois para junto do mar,
onde possa ser apenas mais um poema
- como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros
e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas
a saudades de um Verão carregado de paixões).
E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas que chamem pelas abelhas,
e um cordão de árvores que perfurem a noite
- porque a morte deve ser clara como o sal na bainha das ondas,
e a cegueira sempre me assustou
(e eu já ceguei de amor, mas não contes a ninguém que foi por ti).
Quando eu morrer,
deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores,
nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
E promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios;
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez:
se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz,
lágrimas de sol, ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.

- Maria do Rosário Pedreira

Wednesday, April 08, 2009

Nem todos os frutos vermelhos
merecem o céu da tua boca.

- Jorge Sousa Braga

Monday, April 06, 2009

Deve chamar-se tristeza

Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.

Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.

- Fernando Pessoa

Saturday, April 04, 2009

Eco

Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.

Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.

Era esse o meu reino e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.

Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.

- Fernando Pinto do Amaral

Wednesday, March 25, 2009

Os meus filmes #27

O Despertar da Mente (The Eternal Sunshine of The Spotless Mind)
Michel Gondry, 2004

Tuesday, March 24, 2009

Os meus filmes #26

Perto Demais (Closer)
Mike Nichols, 2004


"Why isn't love enough?"

Sunday, March 22, 2009

Ausência

"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, a as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói."

- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês

Friday, March 20, 2009

Os meus livros #9

O estrangeiro
Albert Camus, 1942


“Compreendi, então, que um homem que houvesse vivido um único dia, poderia sem dificuldades passar 100 anos numa prisão. Teria recordações suficientes para não se entediar.”

Wednesday, March 18, 2009

25/06/1985 - 11/03/2009

Não vou esquecer o teu rosto.
Não vou esquecer o sofrimento e a incredulidade nas expressões de todas as pessoas que te conheceram.
Não vou esquecer o desespero dela ao sentir-te desaparecer, o desespero de sentir a felicidade fugir, os planos desfazerem-se, o desencontro do amor que havia encontrado.

Os meus filmes #25

Breakfast on Pluto
Neil Jordan, 2005