Vida de Adulto
Sunday, April 12, 2009
Friday, April 10, 2009
Quando eu morrer
Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagámos de beijos
quando eram outras horas nos relógios do mundo
e não havia ainda quem soubesse de nós;
e leva-o depois para junto do mar,
onde possa ser apenas mais um poema
- como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros
e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas
a saudades de um Verão carregado de paixões).
E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas que chamem pelas abelhas,
e um cordão de árvores que perfurem a noite
- porque a morte deve ser clara como o sal na bainha das ondas,
e a cegueira sempre me assustou
(e eu já ceguei de amor, mas não contes a ninguém que foi por ti).
Quando eu morrer,
deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores,
nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
E promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios;
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez:
se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz,
lágrimas de sol, ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
- Maria do Rosário Pedreira
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis que alagámos de beijos
quando eram outras horas nos relógios do mundo
e não havia ainda quem soubesse de nós;
e leva-o depois para junto do mar,
onde possa ser apenas mais um poema
- como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros
e eu tinha medo de me deitar só com a tua sombra.
Deixa que nos meus braços pousem então as aves
(que, como eu, trazem entre as penas
a saudades de um Verão carregado de paixões).
E planta à minha volta uma fiada de rosas brancas que chamem pelas abelhas,
e um cordão de árvores que perfurem a noite
- porque a morte deve ser clara como o sal na bainha das ondas,
e a cegueira sempre me assustou
(e eu já ceguei de amor, mas não contes a ninguém que foi por ti).
Quando eu morrer,
deixa-me a ver o mar do alto de um rochedo e não chores,
nem toques com os teus lábios a minha boca fria.
E promete-me que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios;
e que depois os lanças na solidão de um arquipélago
e partes sem olhar para trás nenhuma vez:
se alguém os vir de longe brilhando na poeira,
cuidará que são flores que o vento despiu,
estrelas que se escaparam das trevas, pingos de luz,
lágrimas de sol, ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
- Maria do Rosário Pedreira
Wednesday, April 08, 2009
Monday, April 06, 2009
Deve chamar-se tristeza
Deve chamar-se tristeza
Isto que não sei que seja
Que me inquieta sem surpresa
Saudade que não deseja.
Sim, tristeza - mas aquela
Que nasce de conhecer
Que ao longe está uma estrela
E ao perto está não a Ter.
Seja o que for, é o que tenho.
Tudo mais é tudo só.
E eu deixo ir o pó que apanho
De entre as mãos ricas de pó.
- Fernando Pessoa
Saturday, April 04, 2009
Eco
Vagas são as promessas e ao longe,
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.
Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.
- Fernando Pinto do Amaral
muito longe, uma estrela.
Cruel foi sempre o seu fulgor:
sonâmbulas cidades, ruas íngremes,
passos que dei sem onde.
Era esse o meu reino e era talvez essa
a voz da própria lua.
Aí ficou gravada a minha sede.
Aí deixei que o fogo me beijasse
pela primeira vez.
Agora tenho as mãos vazias,
regresso e sei que nada me pertence
- nenhum gesto do céu ou da terra.
Apenas o rumor de breves sombras
e um nome já incerto que por mágoa
não consigo esquecer.
- Fernando Pinto do Amaral
Wednesday, March 25, 2009
Tuesday, March 24, 2009
Sunday, March 22, 2009
Ausência
"Quero dizer-te uma coisa simples: a tua ausência dói-me. Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma; mas que não deixa, por isso, de deixar alguns sinais - um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos, como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto. São estas as formas do amor, podia dizer-te; e acrescentar que as coisas simples também podem ser complicadas, quando nos damos conta da diferença entre o sonho e a realidade. Porém, é o sonho que me traz a tua memória; e a realidade aproxima-me de ti, agora que os dias correm mais depressa, a as palavras ficam presas numa refracção de instantes, quando a tua voz me chama dentro de mim - e me faz responder-te uma coisa simples, como dizer que a tua ausência me dói."
- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês
- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês
Friday, March 20, 2009
Os meus livros #9
Wednesday, March 18, 2009
25/06/1985 - 11/03/2009
Não vou esquecer o teu rosto.
Não vou esquecer o sofrimento e a incredulidade nas expressões de todas as pessoas que te conheceram.
Não vou esquecer o desespero dela ao sentir-te desaparecer, o desespero de sentir a felicidade fugir, os planos desfazerem-se, o desencontro do amor que havia encontrado.
Não vou esquecer o sofrimento e a incredulidade nas expressões de todas as pessoas que te conheceram.
Não vou esquecer o desespero dela ao sentir-te desaparecer, o desespero de sentir a felicidade fugir, os planos desfazerem-se, o desencontro do amor que havia encontrado.
Tuesday, March 17, 2009
Pedro, lembrando Inês
"Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite. É verdade que te podia dizer: "Como é mais fácil deixar que as coisas não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos apenas dentro de nós?" Mas ensinaste-me a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou, até sermos um apenas no amor que nos une, contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor: ver-te mesmo quando não te vejo, ouvir a tua voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo esse que mal corria quando por ele passámos, subindo a margem em que descobri o sentido de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor, de chegar antes de ti para te ver chegar: com a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu: a primavera luminosa da minha expectativa, a mais certa certeza de que gosto de ti, como gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste."
- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês
- Nuno Júdice in Pedro, lembrando Inês
Monday, March 16, 2009
Os meus livros #8
O Retrato de Dorian Gray
“Toda a arte é inútil."
"(...) Depois, aparecera Lord Henry Wotton com o seu estranho discurso panegírico sobre a juventude e o prenúncio terrível da sua brevidade. Isso perturbara-o então, e agora, ao encarar o reflexo da sua beleza, toda a realidade da descrição acudiu-lhe subitamente ao espírito. De facto, havia de chegar o dia em que o rosto ficaria enrugado e mirrado, os olhos baços e sem cor, e a graciosidade das suas formas destruída e deformada. O vermelho vivo dos lábios desapareceria, e também o tom dourado do cabelo. A vida que teve, que Lhe criar a alma havia de desfigurar-Lhe o corpo. Iria tornar-se horrendo, hediondo e grosseiro. Ao pensar nisso, uma dolorosa angústia, acutilante como uma faca, fez vibrar cada fibra delicada do seu ser. O azul dos olhos passou a cor de ametista, e cobria-o uma névoa de lágrimas. Tinha a sensação de que uma mão de gelo lhe pousara no coração. (…)”
"(...) Depois, aparecera Lord Henry Wotton com o seu estranho discurso panegírico sobre a juventude e o prenúncio terrível da sua brevidade. Isso perturbara-o então, e agora, ao encarar o reflexo da sua beleza, toda a realidade da descrição acudiu-lhe subitamente ao espírito. De facto, havia de chegar o dia em que o rosto ficaria enrugado e mirrado, os olhos baços e sem cor, e a graciosidade das suas formas destruída e deformada. O vermelho vivo dos lábios desapareceria, e também o tom dourado do cabelo. A vida que teve, que Lhe criar a alma havia de desfigurar-Lhe o corpo. Iria tornar-se horrendo, hediondo e grosseiro. Ao pensar nisso, uma dolorosa angústia, acutilante como uma faca, fez vibrar cada fibra delicada do seu ser. O azul dos olhos passou a cor de ametista, e cobria-o uma névoa de lágrimas. Tinha a sensação de que uma mão de gelo lhe pousara no coração. (…)”
Sunday, March 15, 2009
Saturday, March 14, 2009
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