Thursday, April 10, 2008

Delicioso

"No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das seges, eu pensava nela, rezando avé-marias. Nunca roçara corpo tão belo, de um perfume tão penetrante; ela era cheia de graça, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as mulheres, com um rumor de sedas claras..."


Eça de Queirós in A Relíquia

Friday, April 04, 2008

Os Queixinhas

É ponto assente aceite por todos, quer a nível nacional, quer a nível internacional, que somos um país pobre. As estatísticas, os políticos, os sociólogos, são unânimes em afirmá-lo.

É certo que ao longo da nossa também longa história, temos tido já períodos de mais prosperidade. Mas isso são “foguetadas”, para depois tornarmos a cair, não “na austera, apagada e vil tristeza”, mas naquilo que parece ser a nossa fatal e atávica mediocridade.

Não sou sociólogo, mas tenho a minha opinião, que nunca em tempo algum tive medo de expressar, com todo o respeito que tenho pelas alheias, mesmo que diferentes das minhas.

É dessa análise, que não pretendo que seja mais do que a minha opinião, de que hoje me proponho falar em breves linhas.

Neste rectângulo “à beira-mar plantado”, que por alturas da independência era a pequena extensão da Galiza até ao Mondego, porque o resto foi sendo conquistado aos mouros, nunca teve autonomia económica para viver desafogadamente. E por mais que os nossos poetas e prosadores tenham tentado arranjar outros motivos e justificações para as descobertas, como a “dilatação da fé e do império”, a verdade prosaica é, para mim, que o que os moveu foi, apenas, a busca de rendimentos que lhes permitissem uma vida melhor, o que é legítimo, se for honestamente conseguido, o que parece que nem sempre foi o caso.

Com as descobertas deixámos de ser apenas um país de agricultores de auto-consumo, mas também de navegadores e colonizadores.

Este foi o nosso principal “desenrascanço” até perdermos todas as colónias.

Mas a figura do “Velho do Restelo” já nos mostra que nos tempos de Vasco da Gama havia os “queixinhas”.

Chegados à democracia com o 25 de Abril e reduzidos à nossa plataforma continental, mais a Madeira e os Açores, continuámos a “desenrascar-nos” com as ajudas comunitárias, depois da nossa adesão.

E duma época em que falar em política era apenas permitido para louvar, seguiu-se outra, em que falar só é usado para lamúrias. É impressionante e deve ser uma vida horrível a daquelas pessoas que não vêem nada de bom à sua volta e não se cansam de o anunciar, quer pela palavra, quer pela escrita. Está sempre tudo mal!

Sempre fomos defensores dum tipo de sociedade que dê a todos os indivíduos as mesmas hipóteses à partida. O resto depende das aptidões e do esforço de cada um. Um Estado que procure ajudar aqueles que se esforçam a aqueles que não podem trabalhar e não aqueles que passam a vida a queixar-se de tudo e de todos, à caça de todos os subsídios com a única finalidade de fugir ao trabalho.

Em vez de passarmos a vida a lamentar-nos, porque é que não vamos à luta? Porque é que a culpa é sempre dos governos e nunca nossa?

Desde 1500 que os portugueses foram à procura duma vida melhor a outras paragens. A esses rendo a minha homenagem e àqueles quatro milhões e meio que ainda hoje andam espalhados pelos quatro cantos do Mundo.

Não quero com isto dizer que o ideal não seja termos todos trabalho e condições na nossa terra. O facto disso nunca ter sido conseguido até agora, não quer dizer que paremos de tentar. Eu sou dos que pensam que há ainda muito potencial a explorar. Temos de ser é suficientemente imaginativos. Mas do que não podemos é estar à espera que os governos, sejam eles quais forem, nos façam tudo. Se assim pensarmos vamos morrer sem o conseguir

Não queremos desculpabilizá-los dos seus erros, porque sempre os tiveram e terão. É bom que sejam cada vez menos. O que não podemos é fazer passar a ideia que os governos sejam os culpados de tudo, mesmo quando nós não prestamos como trabalhadores, como empresários ou como simples cidadãos.

A coisa mais fácil do mundo é arranjar culpados.

Outra coisa que não aceitamos é que sistematicamente, se estabeleçam paralelos com outros povos para salientar aquilo que eles têm melhor do que nós. Eles têm tudo o que é bom e nós só o que é mau.

Só a título de exemplo: será que tenhamos de ter inveja aos atentados no comboio em Espanha, da ETA e nos seus numerosos actos de terrorismo? Será que tenhamos como bom os milhares de carros incendiados em França? Será que seja aceitável o que se passou na Holanda entre católicos e protestantes? E os atentados no metro de Londres e o receio permanente de que aconteçam mais? E o 11 de Setembro nos Estados Unidos? E a crise bolsista? E o endividamento das famílias, que parece é bastante superior ao nosso?

- E os conflitos no Médio Oriente?
- E os assaltos no Brasil?
- Etc., etc., etc.

Será que, por ser noutros locais do mundo, esses povos encarem isso como simples diversões?!

Se está tudo assim tão mau entre nós, porque razão estamos a ter problemas com a obesidade?

Desde quando é que a obesidade é um sinal de privações?

É que o El Dorado, do Cândido, de Voltaire, nunca mais esteve ao alcance da humanidade, desde Adão. Quando isso acontecer, ao darmos o salto para a outra vida (?), podemos então dizer que não “passamos desta para melhor”.

Até lá, tal como Leibniz, temos de considerar que este é “o melhor dos mundos possíveis”, mas como Voltaire, com hipóteses de melhorias. Mas temos todos, governantes e governados, de fazer por isso.

Joaquim São Bento

Tuesday, April 01, 2008

Mundo cinzento

www.olhares.pt


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.

- Eugénio de Andrade

Saturday, March 22, 2008

...


www.olhares.pt

Preferias que cantasse noutro tom
Que te pintasse o mundo de outra cor
Que te pusesse aos pés um mundo bom
Que te jurasse amor, o eterno amor

Querias que roubasse ao sete estrelo
A luz que te iluminasse o olhar
Embalar-te nas ondas com desvelo
Levar-te até à lua para dançar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há-de saber o que disseres

Talvez até pudesse dar-te mais
Que tudo o que tu possas desejar
Não te debruces tanto que ainda cais
Não sei se me estás a acompanhar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há-de saber o que disseres

Podia, se quisesses, explicar-te
Sem pressa, tranquila, devagar
E pondo, claro está, modéstia à parte
Uma ou duas coisas, se calhar

Que a lua está longe e mesmo assim
Dançar podemos sempre, se quiseres
Ou então, se preferires, fica aí
Que ninguém há-de saber o que disseres


Cantiga de Amor - Rádio Macau

Thursday, February 21, 2008

Serenata

Pôr do sol no Cabo da Roca, Fev. 2008


Serenata

Venho ao teu encontro a procurar
bondade, um céu de camponeses,
altas árvores onde o sol e chuva
adormecem na mesma folha.

Não posso amar-te mais,
luz madura, espaço aberto.
Não posso dar-te mais do que te dou:
sangue, insónias, telegramas, dedos.

Aqui estou, fronte pura, rodeado
de sombras, de soluços, de perguntas.
Aceita esta ternura surda,
este jasmim aprisionado.

Nos meus lábios, melhor: no fogo,
talvez no pão, talvez na água,
para lá dos suplícios e do medo,
tu continuas: matinalmente.

- Eugénio de Andrade

Friday, November 03, 2006


"Feel the vibe, feel the terror, feel the pain
It's driving me insane
I can't fake
For God's sake
Why am I driving in the wrong lane...?"

Tuesday, October 31, 2006

Tu não sabes


"Tu não sabes
Que o sonho não morreu
Quando o beijo se perdeu,
Que a manhã não acabou
Só por nós.
Tu não sabes
Que palavras vais usar
Quando o sono nao vier,
Quando a noite te disser
«Vem comigo»..."

Friday, September 01, 2006

Embora os meus olhos sejam
os mais pequenos do mundo
o que importa é que eles vejam
o que os homens são no fundo.

Que importa perder a vida
na luta contra a traição
se a razão mesmo vencida
não deixa de ser razão.

Vós que lá do vosso império
prometeis um mundo novo
calai-vos que pode o povo
querer um mundo novo a sério.

Eu não tenho vistas largas
nem grande sabedoria
mas dão-me as horas amargas
lições de filosofia.

António Aleixo

Saturday, August 26, 2006

Concerto para Piano nº 21 (Mozart)

Vêem-se todas as estrelas.
Rodopio de braços abertos perante a imensidão do Universo.
Sinto cada grão de areia acariciar-me os pés.
A brisa da noite trás o cheiro do mar,
Traz o brilho de prata da lua.
É magia.
É um sonho...

Saturday, May 27, 2006

In memorian



Esses mortos difícies
Que não acabam de morrer
Dentro de nós; o sorriso
De fotografia,
A carícia suspensa, as folhas
Dos estios persistindo
Na poeira; difíceis;
O suor dos cavalos, o sorriso,
Como já disse, nos lábios,
Nas folhas dos livros;
Não acabam de morrer;
Tão difíceis, os amigos.

Eugénio de Andrade

Friday, December 30, 2005

Um mundo melhor #2

Num mundo melhor, as crianças todas terão acesso a comida, água potável, serviços de saúde e higiene.

Num mundo melhor não teremos metade das pessoas a desperdiçar comida enquanto outra metade morre de fome e malnutrição. Metade das crianças de África são malnutridas e 6 milhões morrem todos os anos.

As crianças malnutridas que sobrevivem tornam-se muito mais vulneráveis a doenças e menos capazes intelectualmente. Enquanto isso, nos países desenvolvidos, milhões de toneladas de comida são deitadas no lixo.

Num mundo melhor não teremos presidentes corruptos que deixam o seu povo morrer à fome enquanto compram mais um carro de luxo com dinheiro que não lhes pertence.

Quem o permite? Por que parece passar despercebido aos olhos de todos, quando sabemos que todos o sabem? É como se todos o permitíssemos…

Por que não contribuem mais os países ricos? E por que é que são precisamente os ricos, aqueles que mais mesquinhamente contribuem?

São coisas que dão que pensar…